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Inspiração bem longe de casa

Empreendedores conseguem tirar um período sabático para estudar no exterior e voltam com mais experiência para gerir seus negócios

Por Adriana Fonseca

Dono do restaurante Natural & Tasty, inaugurado em junho de 2008 no bairro dos Jardins, em São Paulo, Kiko Hwang, 42 anos, definiu o perfil de seu negócio durante o curso de chef internacional na Le Cordon Bleu College of Culinary Arts Miami, nos Estados Unidos. Médico de formação, Hwang já era proprietário de um restaurante fast-food quando decidiu estudar no exterior em 2007. Seu objetivo era tornar-se chef e, na volta, abrir outro restaurante, desta vez oferecendo uma culinária diferenciada. "Eu queria ser muito mais do que um bom cozinheiro de fim de semana, mas me faltava conhecimento culinário", afirma Hwang.

Ao chegar ao Brasil, em janeiro de 2008, Hwang foi obrigado a fechar o fast-food que tinha, porque o shopping onde estava instalado baixou as portas. Seis meses depois, ele abriu o Natural & Tasty, classificado como restaurante natural gourmet. "Em Miami eu tive contato com uma culinária natural sem radicalismos. Foi aí que tive a ideia de abrir o negócio", diz ele, que voltou ao Brasil com o título de chef de cozinha. O Natural & Tasty alcançou o ponto de equilíbrio em fevereiro deste ano. Hoje, recebe cerca de 120 clientes por dia e tem previsão de faturamento de R$ 900 mil para 2009.

Durante o tempo em que esteve no exterior - um ano e oito meses -, Hwang não teve dificuldade para administrar seu fast-food. Duas vezes por semana ele recebia e enviava por e-mail planilhas com os números do restaurante e participava das decisões do negócio por telefone e internet. Nos dois anos em que ficou distante da empresa, Hwang veio ao Brasil por seis vezes. "Nesse período de ausência, o faturamento do meu restaurante triplicou", afirma o empresário. Sinal de que administração a distância também funciona.

Aprendizado na prática


Além de analisar a grade curricular e ver que o curso atendia às suas necessidades, Hwang escolheu Miami para estudar por três motivos: a presença de uma grande comunidade de brasileiros na região, o idioma, que ele domina bem, e a proximidade com o Brasil. "Ir e voltar da Europa seis vezes durante dois anos seria muito mais desgastante", diz.

O consultor Marcelo Ambrózio Ramos, sócio da MBA House, empresa especializada em localizar os melhores cursos e faculdades no exterior, diz que eleger uma pós-graduação olhando apenas para os rankings dos melhores MBAs dos Estados Unidos ou da Europa não é o melhor caminho. "Não adianta a faculdade ser ótima e não ter nada a ver com o perfil do interessado", afirma Ramos. Em Harvard, por exemplo, os alunos participam de diversos debates que contam pontos na nota final. "Uma pessoa tímida e que não domine perfeitamente a língua inglesa não se sentirá bem estudando lá, apesar de ser uma das melhores faculdades do mundo."

A vontade de passar um período na Europa foi o estímulo para que Gustavo Ferreira, dono de três bares e restaurantes temáticos em Curitiba, procurasse um MBA no Velho Continente. Ele recorreu à lista dos melhores cursos e viu que a IESE Business School, na Espanha, oferecia aos alunos um forte desenvolvimento na área de empreendedorismo. "A visão empreendedora da escola contou muito na escolha do curso", diz o empresário de 32 anos.

Enquanto estava no exterior, Ferreira deixou os negócios sob a tutela de seus dois sócios. A cada 15 dias eles se reuniam pela internet para conversar sobre a empresa e alinhar decisões estratégicas. "Fui um sócio ausente, mas atuante", afirma. Ferreira conta que o fuso horário atrapalhava e que algumas horas de sono foram perdidas para manter os encontros quinzenais.

Ao voltar para Curitiba, em outubro do ano passado, Ferreira diz que passou a ver o negócio com outros olhos. "Aprendi que todas as áreas da empresa são parte de uma engrenagem e precisam girar na mesma direção", diz. Com isso em mente, uma das primeiras medidas do empresário foi contratar uma consultoria para ver quais aspectos do negócio precisavam melhorar. Os consultores apontaram para uma necessidade imediata de padronização, profissionalização e informatização.

Antes, as recepcionistas é que faziam o marketing dos bares e restaurantes. "Como elas conhecem muito bem os clientes, encarregavam-se de entrar em contato com eles para falar da promoção da bebida predileta ou convidá-los para comemorar o aniversário conosco", diz Ferreira. Com a ajuda dos consultores, o empresário levantou a seguinte questão: "Mas, se elas pararem de trabalhar na empresa, vamos perder o conhecimento que temos de nossa clientela?"

O banco de dados com informações detalhadas dos clientes foi informatizado. Agora é possível, por exemplo, criar promoções para quem consumiu vodca nos últimos três meses. Foi formado um departamento de comunicação e marketing, com dois novos funcionários, para bolar ações promocionais. Os resultados já começam a aparecer. Ferreira conta que, às quartas-feiras, o movimento era fraco no Es Vedrà, um dos três bares que ele administra. Para aumentar o fluxo de pessoas, sua equipe entrou em contato com um grupo de clientes, oferecendo uma promoção: se cinco meninas forem juntas à casa, ganham uma garrafa de vodca. "O movimento passou de 200 para 400 pessoas às quartas", comemora o empresário. Ele estima faturar R$ 20 milhões em 2009 com a abertura de mais um bar na capital paranaense.

Bolsas de estudo

Para bancar seus estudos no exterior, Ferreira usou o dinheiro que conseguiu economizar nos últimos anos. Só o curso que ele fez custa 67 mil euros, o que se traduz em, aproximadamente, R$ 197 mil. Quem não tem condições de arcar com valores similares pode recorrer a uma bolsa de estudos. A concorrência é grande - é preciso ser aceito pela universidade e ter um bom currículo escolar e profissional. Somente para dar uma ideia: dos 6 mil alunos que tentaram uma ajuda de custo na Fundação Estudar, em 2008, apenas 38 conseguiram que a instituição custeasse entre 5% e 95% do valor do curso.

Um dos felizardos foi o carioca Márcio Afonso Assad Cohen, de 26 anos, sócio da rede de escolas Ponto de Ensino, com dez unidades no Rio de Janeiro. Ao decidir fazer um MBA no MIT, em Massachusetts, nos Estados Unidos, Cohen fez o teste, foi aprovado e pleiteou uma bolsa na Fundação Estudar. Ele recebeu um auxílio de US$ 25 mil para pagar um curso de aproximadamente US$ 72 mil. Hoje ele vive nos Estados Unidos e termina o curso em agosto.

Depois de quatro anos à frente de três unidades da Ponto de Ensino, Cohen, formado em engenharia, sentiu necessidade de receber um treinamento mais formal em administração de empresas. Ele escolheu um curso no exterior porque aproveitaria a oportunidade para trocar experiências com empreendedores de várias partes do mundo. "Estou vendo como diferentes empresas abordam problemas administrativos parecidos com os que temos na Ponto de Ensino e pretendo aplicar esse aprendizado no meu negócio", afirma Cohen. Além do lado profissional, o empreendedor diz que estudar no exterior está sendo uma ótima experiência pessoal. "O fato de conviver com pessoas de mais de 30 nacionalidades diferentes está fazendo com que eu cresça muito", diz. "Estou aprendendo a superar diferenças de cultura e de pensamento entre pessoas com formações diferentes."

Para Wilson Trevisan, presidente do Clube do Empreendedor, estudar no exterior permite uma imersão impossível de conseguir em um curso no Brasil. "A tendência é que o aluno aproveite melhor o conteúdo da pós e as atividades extra-classe, já que está focado nos estudos naquele momento", afirma. Ao voltar para a empresa, a experiência no exterior certamente terá o seu valor.

Fonte: PEGN.globo.com



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